DESOCULTADO: A LIBERTAÇÃO DE UM CORPO VIADO

DESOCULTADO: A LIBERTAÇÃO DE UM CORPO VIADO

Paulo Brazão

jbrazao@staff.uma.pt

Universidade da Madeira

Universidade Federal de Sergipe




Poema, texto do vídeo



Link: https://youtu.be/Ja7g_IUS-KE 


DESOCULTADO


É preciso ter medo, disseram-me

medo do desconhecido e do saber desocultado

Medo de viver o corpo viado

É preciso aprisionar a alma

e engomá-la com o paraíso adiado.

É preciso silenciar os corpos dissidentes

Apraz-me a revolta

Luto, torturo o medo

solto o corpo viado,

olho firme com pensamento,

sem medo conhecido, sem medo desconfiado,

sem medo de olhar o medo passado,

e torno aqui e agora o eterno pronunciado,

diluo o medo escuro no brilho de ouro vincado.



APRESENTAÇÃO

Com base numa narrativa poética breve sobre a ocultação e a desocultação da sexualidade e do género, esta comunicação defende o protagonismo dos sujeitos na vivência dos seus corpos.  A intersecção da arte nos contextos de ação e de produção de conhecimento constitui um incentivo ao ativismo académico, engajado nos diferentes modos de ser e estar dos sujeitos, motivo pelo qual a reflexão sobre a inclusão social da diversidade na comunidade académica também se torna pertinente. Com a duração de dois minutos, a narrativa é apresentada na forma de video com três linguagens: a escrita, o som e a imagem. A identidade é simbolizada por um olho que se auto-vê, um olho consciência, colocado no canto direito do ecrã e pela expressão do olhar monopolizando todo o espaço videográfico. No lado esquerdo encontram-se as imagens que traduzem o pensamento do sujeito. Coloca-se no poema dois momentos reflexivos subsequentes: no primeiro momento, o cenário de constrangimento. No segundo momento, o cenário de libertação do sujeito face à opressão anterior expressa. O cenário de constrangimento evoca as dinâmicas da repressão e as resistências à diversidade sexual e de género que ainda persistem nos diferentes contextos sociais, inicialmente internalizada no sujeito desta ação. O contexto externo alimenta a tensão interior que condiciona a vida quotidiana ainda opressiva e discriminatória da sociedade portuguesa atual. O medo é um denominador comum, uma marca no processo de aculturação do sujeito. Em oposição, a libertação constitui um avanço ao enfrentamento do medo recorrente do sujeito. O momento de libertação do indivíduo homenageia os 40 anos da descriminalização da homossexualidade em Portugal e ainda os quatro anos decorridos da consagração legal da autodeterminação de género. Faz-se um convite à reflexão sobre as construções, desconstruções e reconstruções do conceito de sexo e género, fundamentais no âmbito dos direitos humanos, numa sociedade democrática.